Não importa se és proprietário de uma empresa. Não importa se és empregado em uma empresa ou se trabalhas para uma empresa. Há uma pergunta intrigante que fica sempre no nosso subconsciente: “Esta empresa tem futuro?” Esta pergunta faz-nos pensar em muitas coisas. Uma delas é se a empresa manter-se-á em existência depois de sucumbirmos ou, pelo menos, até à nossa reforma. Se formos o proprietário, talvez nos perguntemos se a empresa será a herança segura para os filhos, para os netos e para as gerações vindouras. Ao reflectirmos nisso, o alvo será, inequivocamente, manter a empresa financeiramente lucrativa durante incontáveis décadas ao longo dos séculos. Esta preocupação legítima sobre a continuidade e sustentabilidade das empresas abre a oportunidade para falar das empresas do futuro no presente.
Temos que admitir que, a futura competitividade entre as empresas do futuro será ainda muito mais ferrenha do que a actual. Muitas empresas do presente não serão empresas do futuro. Na verdade, já terminou a era em que a vantagem competitiva das empresas dependia largamente na capacidade de atrair e gastar sabiamente o capital financeiro. Actualmente, as empresas estão a buscar obter vantagem competitiva pela superioridade tecnológica. Aliás, já não é invulgar falar-se sobre Inteligência Artificial (AI) nas empresas, reforçando a ideia de que a superioridade tecnológica seja a característica número um das empresas do futuro. É verdade que, a combinação da capacidade de atrair capital financeiro, usando-o sabiamente, e a aquisição e o uso de tecnologia superior constituirá vantagem competitiva entre as empresas do futuro.
Entretanto, e indubitavelmente, o diferencial competitivo das empresas do futuro é, esempre será, a “Ética Corporativa” ou “Ética Empresarial”. É bem provável que, um considerável número de administradores, directores e gestores empresariais no mundo, até mesmo em países desenvolvidos, venham a esboçar um sorriso sarcástico à esta convicção. Paradoxalmente, o sarcasmo à “Ética Corporativa” é ainda tão presente e forte numa altura em que proliferam, em grande velocidade, os livros e artigos sobre boa governação corporativa e ética empresarial. O conteúdo destes livros e artigos são difundidos nos estabelecimentos de formação profissional, em conferências e colóquios para executivos empresariais e até nas academias. O porquê deste posicionamento é matéria para um outro chocantemente interessante artigo! Mesmo assim, vamos aprofundar um dos elementos da convicção.
Muitos de nós achamos muito enfadonhas as aulas nos estabelecimentos de ensino sobre ética. Os professores usavam muitos termos filosóficos e uma construção gramatical complexa para tentar explicar conceitos desconhecidos. Era tudo tão monótono, tendo muitos de nós perdido o interesse no tema. Então, vamos procurar ser o mais simples e provocativo.
Todas as empresas que não forem percebidas pelos seus stakeholders como confiáveis não serão sustentada e sustentavelmente rentáveis. Algumas desaparecerão do mercado gradualmente, dentro de poucos anos. O colapso de outras será escandalosamente abrupto. Umas tantas empresas nem mesmo conseguirão sair da fase embrionária para se estabelecer no mercado. E, tudo isso por falta de ética. Noutras palavras, tudo isso por não interagirem com os seus stakeholders em harmonia com os valores e princípios éticos que elas mesmas escolheram e os articularam em documentos internos. Nalguns casos, as empresas não determinarão quaisquer valores e princípios éticos para nortear a actuação com os respectivos stakeholders. Nestes casos, os stakeholders estabelecerãoas expectativas sobre a interacção entre eles e as empresas no mercado.
Vamos aprofundar um pouco mais. Um dos stakeholders das empresas são as pessoas que desempenham as funções necessárias para que a sua missão seja atingida e a visão realizada, neste caso, os colaboradores. Agora, está na moda os líderes empresariais afirmarem publicamente que as pessoas são os activos mais importantes das suas empresas. Pois, está sendo amplamente reconhecido que são as pessoas, ou recursos humanos, das empresas as provedoras mais prováveis das competências fulcrais, que serão a fonte primária de sustentada vantagem competitiva e de elevado desempenho financeiro à longo-prazo. O conjunto destas competências fulcrais é o que muitos chamam de “capital humano”. Como está a ética corporativa intrinsecamente ligada ao capital humano, constituindo-a como o diferencial competitivo das empresas do futuro?
É muito simples. O “capital humano” é algo intangível que não se encontra no vácuo. O capital humano não é o conhecimento que se encontra nos livros. Se assim fosse, bastaria colocar muitos bons livros sobre contabilidade e finanças numa sala com o letreiro à porta “Departamento de Contabilidade e Finanças”, para ter todas as funções de contabilidade e finanças executadas pontual e correctamente. Em vez disso, são as pessoas as portadoras do capital humano. Não é possível dissociar o “capital humano” das “pessoas”. Muitas pessoas já trazem o capital humano adequado quando são seleccionadas para trabalhar nas empresas. Muitas adquirem-no através do investimento que a empresa faz em treinamento e formação para elas. Estas “pessoas” com o “capital humano” podem ser vistas como “o activo mais importante” da empresa. Entretanto, podem não ser a vantagem competitiva. É aqui em que a ética corporativa se torna no diferencial competitivo das empresas do futuro!
Quando os administradores, os directores e os gestores interagirem entre si e com as pessoas sob a sua tutela, aplicando com integridade os valores e princípios éticos corporativos, ou os expectáveis pela sociedade, as pessoas decidirão voluntariamente colocar exponencialmente o “capital humano” ao benefício da empresa. Isso acontecersob quaisquer circunstâncias do mercado, alcançando todos os objectivos estratégicos num ambiente empresarial altamente competitivo e em condições económicas voláteis e extremamente incertas!